São Paulo,06 de Abril de 2010 - 09:04

Avanços em favor das redes inteligentes

Cyro Vicente Boccuzzi*

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A instalação de redes inteligentes de energia, ou smart grids, tem avançado significativamente na lista de prioridade dos governos, agências e demais instituições do setor no mundo inteiro. A medição eletrônica começa a se tornar realidade em diversas regiões. Além disso, outras tecnologias relacionadas à redução de perdas, otimização de consumo e descentralização da geração já não são efetivamente novidades. No entanto, ainda há um longo caminho a percorrer para transformarmos esse conjunto de avanços isolados efetivamente em smart grids.

O primeiro grande desafio reside na própria estrutura física das redes. A modernização dos ativos, com a instalação de medidores eletrônicos para todos os consumidores de baixa tensão, permitiria um levantamento mais preciso do consumo e seria o passo inicial. A reforma da estrutura tarifária, com a criação de diferentes tarifas para os diferentes perfis de consumo, seria a etapa seguinte e favoreceria um melhor aproveitamento da infraestrutura existente, reduzindo os horários de pico de consumo. Por fim, a simplificação do processo de venda da energia excedente dos microgeradores – unidades geradoras solares e eólicas, por exemplo, instaladas nos próprios consumidores – completaria o processo de modernização.

Não que estejamos parados. Uma série de ações – ainda que isoladas – está em curso para viabilizar essas mudanças. Os principais exemplos podem ser verificados entre as concessionárias de distribuição.

As concessionárias fluminenses vêm tomando a dianteira no uso de medidores eletrônicos em favor do combate às perdas comerciais. A Ampla, por exemplo, instalou cerca de 300 mil unidades entre 2003 e 2009, o equivalente a 12% dos seus clientes. Com isso, foi possível reduzir as perdas em 5 pontos percentuais, de 25% para 20%. Para 2010, a meta é instalar 50 mil aparelhos. Já a Light, com uma perda total de 21%, dos quais 15 pontos percentuais se referiam a perdas comerciais, optou por instalar medidores digitais em locais de alto poder aquisitivo. Até agora já foram instalados 40 mil aparelhos, reduzindo as perdas desses consumidores de 25% para 9%, com metas de chegar a 2%. A ideia é instalar 120 mil medidores em 2010 e mais 100 mil por ano no próximo triênio.

Já a Eletrobrás anunciou investimentos na ordem de R$700 milhões em automação e processos operacionais e comerciais nas distribuidoras do grupo. Pretende implantar um centro de controle de medição com o objetivo de reduzir as perdas. Além disso, quer levar para suas subsidiárias a experiência que vem dando certo no Rio: vai instalar mais de 400 mil medidores eletrônicos em clientes de média e baixa tensão.

A Cemig, por sua vez, está trabalhando num programa de automação da distribuição, o Cidade do Futuro. O projeto será implantado em Sete Lagoas (MG), que possui mais de 80 mil unidades consumidoras. Seguindo a mesma linha, outras empresas importantes do setor como a CPFL e a AES Eletropaulo também anunciaram projetos de testes em grande escala. Por fim, empresas de tecnologia e centros de pesquisa também estão atentos a esse novo cenário e trabalhando em favor de produtos ou projetos relacionados ao smart grid.

Vale observar que esses projetos, de uma maneira geral, se concentram na redução de perdas comerciais das empresas. Afinal, é natural que o processo comece levando em conta as necessidades mais urgentes dos atores envolvidos. No entanto, os benefícios das redes inteligentes de energia podem ir muito além disso.

Ciente desses fatos, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) deu, no ano passado, três passos muito importantes em favor da regulamentação do assunto. Suas preocupações seguem os movimentos das distribuidoras, haja vista a abertura de uma consulta pública sobre a medição eletrônica, mas também outros aspectos fundamentais para o conjunto do smart grid: a publicação, também em consulta pública, da primeira parte de um estudo de aprimoramento das tarifas praticadas no Brasil e a regulamentação da comunicação pela rede elétrica por meio do uso do PLC (Power Line Communications).

A sociedade não está alheia a essa tendência. Prova disso é a criação do Fórum Latino Americano de Smart Grid que, em agosto deste ano, realiza em São Paulo a terceira edição de evento para debater essas questões, bem como experiências internacionais na área. O fórum conta com a participação de concessionárias, grandes consumidores e produtores de energia, governos, agências reguladoras, fabricantes de equipamentos, provedores de sistemas e soluções de medição, controle, automação e entidades de desenvolvimento de P&D de vários países. Em todas essas áreas há muito o que fazer e é fundamental um trabalho conjunto em favor da evolução do setor elétrico consolidada na forma de smart grid.

* Cyro Vicente Boccuzzi é sócio-presidente da ECOee – Expertise, Consultoria e Ordenamento em Energia Eficiente (www.ecoee.com.br) – e presidente do Fórum Latino Americano de Smart Grid (www.smartgrid.com.br).

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