São Paulo,27 de Abril de 2010 - 18:47

Apagões: resíduos da sociedade industrial em plena era da informação

Maria Angela Jabur*

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Toda crise embute uma oportunidade. A frase, que de tão repetida já virou lugar comum dos manuais de gestão corporativa, é a mais pura expressão da realidade. E, melhor: pode ser aplicada em qualquer área de atividade profissional, inclusive a tecnológica. Para ficar apenas em um exemplo: decorreu do fato de o telégrafo não mais suprir as necessidades de expansão e aperfeiçoamento da ação humana, a invenção do telefone, do fax e do computador. E decorreu da junção das funções de todos eles, a disseminação do celular, microcomputador e internet. Juntos, esses equipamentos deram origem ao que hoje chamamos de telecomunicações - a principal responsável pela transição da sociedade industrial para a sociedade da informação.

É exatamente esta informação, transmitida em velocidade nunca antes observada, que pode ser uma aliada valiosa na superação dos atuais problemas do setor elétrico brasileiro. Um exemplo é a sua aplicação para a solução dos problemas que provocaram, nos últimos meses, sucessivos apagões em várias regiões do país. É reconhecido, afinal, que além de fatores naturais, como o excesso de chuvas ou os picos de consumo provocado pelas elevadas temperaturas, também contribuiu para a situação o estado de conservação dos equipamentos das subestações e a forma como a sua manutenção vem sendo realizada.

Tradicionalmente, as atividades de manutenção baseiam-se em dois conceitos – ambos característicos da sociedade industrial. Um deles é o preventivo. Outro, o corretivo. O primeiro exige interrupções programadas de fornecimento para o manuseio dos equipamentos. O segundo ocorre em caso de pane, como as que se tem assistido ultimamente. Em ambos os casos, o consumidor é obrigado a permanecer, no mínimo, algumas horas sem energia elétrica.

No entanto, a tecnologia que permite à informação circular em altíssima velocidade, entre outras inovações produziu uma terceira via também para este segmento. Trata-se da manutenção preditiva que cresce a olhos vistos no exterior e, no Brasil, já é aplicada de maneira pontual em várias concessionárias e indústrias eletrointensivas.

Em síntese, o conceito baseia-se na detecção de problemas em estágio inicial, o que permite a sua correção imediata, sem a necessidade de desligamento programado da subestação. As telecomunicações entram como suporte para o envio on line das informações captadas aos centros de controle, intranet, internet ou aparelhos celulares - o que permite que, em curto espaço de tempo e independente do local onde se encontrem, os profissionais responsáveis pela área possam tomar as providências cabíveis.

Estudos do Cigré (Conseil International Des Grands Réseaux Électriques) mostram que a taxa geral de falhas de transformadores – o coração da subestação – é da ordem de 1,5% a 3%, aproximadamente. Deste total, apenas 30% são detectáveis pelos métodos tradicionais. Já pela manutenção preditiva por monitoramento on line, este índice aumenta para cerca de 70%. Além disso, como as falhas são detectadas em estágio incipiente com o uso do monitoramento on-line, os danos são menores, o que tende a reduzir o período de reparo e, em consequência, da interrupção no fornecimento.

Em outras palavras: além de evitar panes e acidentes, a manutenção preditiva reduz a necessidade das interrupções programadas de fornecimento exigidas pela manutenção preventiva, aumentando o conforto do consumidor e reduzindo o desgaste da imagem da concessionária. Além disso, exige investimentos muito inferiores aos requeridos pela instalação de um novo transformador. Finalmente, uma terceira e importantíssima variável é o fato de o conceito estar em linha com o ambiente Smart Grid, hoje em estudo em todo o mundo e em vias de ser implantado no mercado local.

As inovações tecnológicas suportadas pelas telecomunicações, portanto, têm potencial não só para aumentar a segurança e reduzir os custos da operação e manutenção do sistema elétrico. Também contribuem para o conforto do consumidor – para quem, hoje, as interrupções de fornecimento se tornaram mais visíveis que os benefícios proporcionados –, em benefício da imagem das concessionárias.

Assim, é mais do que razoável considerar os problemas atuais de fornecimento como uma oportunidade para que o setor elétrico dê um salto tecnológico e passe da sociedade industrial para a sociedade da informação.


* Maria Angela Jabur
Jornalista especializada em energia e sócia-diretora da MMA Comunicação de Negócios
angela.jabur@mmacomunicacao.com.br

Celso Chaves
Consultor especializado em gestão empresarial e sócio-diretor da Chaves Consultoria
cchaves2@terra.com.br

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