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São Paulo,06 de Abril de 2010 - 09:25
Cepel, o cérebro do setor elétrico
O presidente do centro de pesquisas fala o passado, presente e futuro da entidade estatal
Por Leandro Tavares

Na ponta do sistema, mais recentemente, o centro de excelência passou a ajudar as áreas de pesquisa e desenvolvimento das concessionárias distribuidoras que, nos próximos anos, enfrentarão o desafio de deixar as redes de distribuição mais inteligentes, com a introdução da tecnologia de smart grids, que tornará os consumidores agentes ativos dentro do setor elétrico, além de reduzir emissões de carbono, controlar a demanda, melhorar indicadores de qualidade e reduzir perdas de energia.
Desde sua fundação, o Cepel participa junto aos órgãos de política energética, como o Ministério de Minas e Energia e conselhos políticos da área, do planejamento a longo prazo do setor. "O Cepel faz o planejamento e a expansão do setor elétrico que nenhum outro segmento da economia brasileira tem hoje", destaca o diretor-geral do Cepel, Albert Cordeiro Geber de Melo, que conversou por telefone durante duas horas com a Revista GTD Energia Elétrica.
Engenheiro eletricista pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Geber de Melo é mestre e doutor em ciências em engenharia elétrica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Pesquisador do Cepel desde 1984, o cientista comanda o centro desde agosto de 2008. Ao longo de sua carreira, publicou artigos técnicos no Brasil e no exterior. Em seu currículo, ainda consta a participação no desenvolvimento de metodologias e programas computacionais, como o modelo de formação de preços de energia no mercado de curto prazo denominado Newave, que é utilizado pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica para determinar semanalmente o Preço de Liquidação das Diferenças (PLD).
Atualmente, o Cepel está empenhado no desenvolvimento de dois grandes projetos. O primeiro, denominado LongDist, estuda como melhor aproveitar e implantar linhas de transmissão de longas distância. A ideia é aproveitar ao máximo a energia que será gerada pelas hidrelétricas que estão sendo construídas na região Amazônica, como as plantas de Santo Antônio (3.150MW) e Jirau (3.450MW), no Rio Madeira. O investimento que está sendo feito no projeto corresponde a 5% dos recursos necessários à construção de uma linha de transmissão de 500KV e são fundamentais para a interligação energética do País. Os estudos focam a transmissão em corrente alternada em tensões de até 1100VV e de transmissão em corrente contínua em tensões de até 800KV.
Além disso, o Cepel ganhou no ano passado a missão de integrar o projeto Rede de Gerenciamento de Energia (Reger), em parceria com a Siemens e com a OSIsoft. O objetivo é modernizar o sistema de gerenciamento do Operador Nacional do Sistema, integrando os quatro centros de operação regionais e o nacional para proporcionar comunicação e compartilhamento de dados entre as regiões. O projeto está previsto para entrar totalmente em operação no segundo semestre de 2011.
Na entrevista abaixo, o diretor-geral do Cepel afirma que o Brasil está no caminho certo na produção científica e tecnológica, mas alerta para o vácuo que ainda existe na cadeia de produção entre a iniciativa privada e as universidades.
Qual a importância do Cepel para o setor elétrico nacional?
Albert Geber de Melo: O Cepel nasceu de uma visão estratégica do governo brasileiro em 1974, para dotar o País com um centro de pesquisa aplicado que pudesse fazer frente às necessidades do setor elétrico brasileiro, que naquela época já despontava como um importante setor para o desenvolvimento do Brasil. Mas era notado que esse setor teria características específicas. Ou seja, era importante ter um centro de pesquisa para não depender de tecnologias estrangeiras, mas como não existiam tecnologias com características brasileiras, tínhamos que desenvolver sistemas de grande qualidade e segurança.
Sabendo disso, o governo, por meio da sua estatal Eletrobrás, que na época desempenhava as funções que fazem suas subsidiárias hoje, resolveu criar um centro de pesquisa voltado para pesquisa e desenvolvimento (P&D). Diante disso, a importância do Cepel para o País hoje é enorme. Nós fazemos um planejamento de expansão no setor elétrico que não existe em outros setores da economia brasileira. Temos um plano de 30 anos que acompanha e monitora o setor.
Nós possuímos uma cadeia de metodologias e programas computacionais que compreendem desde o horizonte de 30 anos à frente, até a operação em tempo real. Hoje, nós temos modelos para fazer o planejamento da expansão do setor elétrico olhando com atenção para o meio ambiente e para a questão social. Em 2007, foi lançado pelo Cepel o novo manual de inventário das redes elétricas, que não está mais galgado apenas nas redes elétricas, mas também nas consequências envolvendo a questão ambiental e social. Outra grande contribuição do Cepel foi participar do desenvolvimento do Newave (modelo computacional que gera preços semanais de energia para o mercado de curto prazo).
Enfim, uma entidade que tem a responsabilidade de ser a guardiã do acervo tecnológico brasileiro e garantir o desenvolvimento para manter no estado da arte é uma decisão ímpar do governo.
Como o Cepel está estruturado atualmente?
Albert Geber de Melo: O Cepel tem uma assembleia da qual participam as empresas do Sistema Eletrobrás que são as grandes mantenedoras do nosso trabalho. Temos também o nosso conselho deliberativo que tem participação do ONS, Eletronuclear, além de representantes de energia elétrica do Sul, Sudeste, Centro-Oeste, Nordeste e Norte. Abaixo do conselho temos três diretorias: a diretoria-geral, a diretoria de pesquisa de desenvolvimento e inovação e a diretoria de gestão e infraestrutura. Além disso, temos os departamentos de energia elétrica e meio ambiente, automação de sistemas, redes elétricas, linhas e subestações, tecnologias especiais, que envolve energias renováveis como eólica e solar, e o departamento de laboratórios.
O que faz cada departamento?
Albert Geber de Melo: Na verdade, os destaques ficam por conta do departamento de automação de sistemas que hoje tem um modelo para supervisão e controle em tempo real por meio da tecnologia Sistema Aberto de Supervisão e Controle (Sage). No passado, quando se fazia um centro de controle, éramos obrigados a contratar uma multinacional e fazer um software igual ao deles. Diante disso, vimos a importância de criar esse departamento para desenvolver nossa própria tecnologia. Outro departamento de destaque é o de redes elétricas, onde temos um programa chamado "família na rede", que tem como objetivo fazer a integração de redes elétricas regionais, por exemplo, como são as linhas do Madeira.
Quantos laboratórios e pesquisadores o Cepel possui?
Albert Geber de Melo: Temos cerca de 30 laboratórios. O mais importante está na Cidade Universitária do Rio de Janeiro, onde fica o conselho geral do Cepel. Existe um outro que fica em Nova Iguaçu, ao lado da subestação de Furnas, onde temos os laboratórios de alta tensão, alta potência e alta corrente. Além disso, temos os laboratórios que ficam aqui no próprio Cepel. Ao todo foram investidos US$500 milhões nos laboratórios. O Cepel hoje tem aproximadamente 500 funcionários. Desse total, 210 são pesquisadores efetivos e 94 técnicos especializados.
Qual a sua avaliação acerca da produção científica sobre o setor elétrico brasileiro?
Albert Geber de Melo: O primeiro elemento mais importante para o Cepel não é a produção científica, mas a produção tecnológica. Se somos o centro de pesquisa de excelência, temos que ter a capacidade de interagir com as partes no Brasil e no exterior. Os novos pesquisadores do Cepel têm que ser doutores. No centro temos muitos pesquisadores experientes e com o passar do tempo as coisas mudaram muito e evoluíram positivamente.
E qual a melhor forma para fazer isso?
Albert Geber de Melo: Com certeza é publicando artigos técnicos científicos em revistas para que possamos ter a capacidade de debater com os outros, colocando seu ponto de vista e, claro, sendo criticado também. É fundamental hoje ter a mescla entre a produção tecnológica e a científica. O Brasil, felizmente, está avançando nesse sentido, não no patamar que deveria, mas de qualquer forma, estamos evoluindo muito na questão da produção técnica científica, inclusive superando Rússia e Holanda. Hoje, as perspectivas para a produção científica são muito animadoras, porque estamos com um grande avanço tecnológico no País. Os primeiros mestres e doutores do País apareceram há aproximadamente 40, 50 anos, portanto ainda somos iniciantes nesse tipo de formação. Agora, algo que ainda não está no patamar desejado são as patentes.
O governo deveria incentivar mais a produção científica nos País?
Albert Geber de Melo: O nível de incentivo já existe. Precisamos mesmo é aproximar a indústria da universidade. Incentivar mais as questões das patentes, seja na academia ou iniciativa privada. O que falta na produção científica é uma maior sinergia entre a iniciativa privada e as universidades dentro da cadeia de inovação. O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) de Ciência e Tecnologia é um bom indicador dos incentivos.
Como o Cepel contribui com as empresas do sistema Eletrobrás?
Albert Geber de Melo: Uma grande inovação que temos aqui não é o modelo, mas a cadeia de metodologias computacionais para o planejamento da operação do sistema elétrico brasileiro. Os projetos que se sobressaem é o Sage e a transmissão à longa distância. Além disso, somos um suporte tecnológico aos programas governamentais, damos suporte técnico ao programa Luz para Todos nas extensões de redes de distribuição e novas fontes renováveis. No Procel, damos suporte para o uso racional de energia. Temos também o centro de referência em energia solar e eólica, com laboratórios que têm toda infraestrutura para desenvolver grandes projetos. Recebemos mais de mil estudantes do ensino fundamental e do ensino médio por ano na casa solar. Nesse momento, estamos em um projeto muito interessante com o sistema Eletrobrás, que é o "Indicadores Gerenciais de Sustentabilidade (IGS)", que ajuda a manter e a melhorar os equipamentos, levando em consideração a sustentabilidade empresarial.
Quais foram os grandes projetos desenvolvidos pelos pesquisadores do Cepel?
Albert Geber de Melo: São basicamente os citados acima. Trabalhamos com projetos de pesquisa, o projeto é onde conseguimos dar nossa contribuição na parte técnica, agora temos os projetos canalizados que são nossos produtos tecnológicos, como o Newave.
Quais foram os grandes avanços vivenciados pelo Cepel em 2009?
Albert Geber de Melo: Existem dois tipos de inovações. Um é experimental e o outro é tecnológico. O experimental é chamado linha de pesquisa para desvendar o setor, com ensino aplicado direcionado para um caso específico. O tecnológico vem sendo aplicado desde a década de 1970, com o Newave. É difícil dizer o que foi relevante de um ano para outro, um projeto com importância demora cerca de cinco anos para se destacar, não se faz estudo de projetos aplicados entre um ano e outro.
O que o governo poderia fazer para ajudar o Cepel?
Albert Geber de Melo: Sempre que vierem recursos, eles serão bem-vindos. De 2003 para cá, não podemos reclamar, o governo está fazendo sua parte. É bem verdade que o novo governo terá que continuar reconhecendo que o Cepel é muito importante para a sociedade brasileira, e deverá continuar incentivando nos moldes do atual governo.
Qual o orçamento anual do Cepel?
Albert Geber de Melo: Em 2009, o orçamento foi de R$190 milhões. Já este ano o orçamento chegará a R$210 milhões. Se comparado com o ano de 2002 até 2010, nós triplicamos esse valor. Os investimentos do Cepel hoje são bem significativos.
Esse orçamento é suficiente?
Albert Geber de Melo: Do ponto de vista do centro de pesquisa, ele é suficiente. Mas dadas as crescentes revoluções tecnológicas do setor elétrico, ele ainda é pouco.
Como está o andamento do projeto Reger? Uma parte dele entrará em operação em 2010?
Albert Geber de Melo: Isso mesmo, este ano já temos que entregar uma parte para o ONS. O Reger é um projeto de quatro anos, mas que será entregue em partes, de forma que a troca total acontecerá apenas em 2011. O Reger nasceu com o objetivo de substituir os múltiplos sistemas hoje instalados nos cinco centros de operações do Operador Nacional do Sistema (ONS), com o propósito de dar mais confiabilidade, segurança e flexibilidade em relação às plataformas atuais.
Qual a importância do projeto LongDist para o Brasil?
Albert Geber de Melo: O LongDist é uma linha de pesquisa com o objetivo de desenvolver transmissão a longa distância, visando aumentar a capacidade do transporte da energia. Hoje, nosso intuito é colocar as linhas de 130KV com mais energia, algo em torno de 60% a 70%. Serão quatro mil quilômetros de linhas. Existe uma série de processos embutidos no seu desenvolvimento. Será um projeto importantíssimo para o setor elétrico brasileiro.
O que podemos esperar do Cepel para os próximos anos?
Albert Geber de Melo: O que se pode esperar do Cepel, que é um centro de pesquisa de excelência, é que ele continue fazendo inovação do conhecimento e que transforme esse conhecimento em benefício para a sociedade como um todo. Sem a Eletrobrás não existiria o Cepel, portanto, esperamos crescer bem, desenvolver ainda mais os projetos e antecipar as necessidades tecnológicas de que o Brasil carece.
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